“Pude perceber que o que parece “desinibição” é justamente o oposto. O álcool nos reduz a emoções rasas. Ao assumir com autenticidade a nossa personalidade, as relações sociais podem se tornar mais interessantes e naturais, sem a necessidade de muletas.” (Vitor Fortes)

Jovem talentoso, advogado dedicado; um guri de bem com a vida! Com 26 anos, Vitor Fortes nos presenteia com uma vivência que traz à tona vários questionamentos que colocam a gente pra pensar. Boa leitura e boas reflexões 🙂

Floripa, aí vamos nós!

Viajamos em quatro amigos com destino à Florianópolis. O motivo principal: rever um querido amigo que há pouco havia se mudado para lá. Era o fim de semana de seu aniversário. A farra seria inevitável. Mas já havia algum tempo que eu não bebia. Por isso, durante a viagem de carro até lá, refleti sobre pergunta que hora ou outra me atingiria: “vou beber? ” Pensei nos prós.
Prós: beberia com meus amigos e viveríamos experiência parecida naquele fim de semana. Isso porque estaríamos, de certa forma, “conectados”. Daríamos risadas e teríamos histórias malucas para contar. Eu me desinibiria e conseguiria me aproximar de garotas mais rapidamente, pensei. “Hum”. Até que parecia interessante. “Acho que vou beber”, concluí.
Chegamos em Florianópolis e nosso novo “manézin da ilha” nos levou a restaurante bastante especial para almoçar. O lugar era incrível. Sentamos em mesas dispostas na areia da praia. Com a sensação dos pés na areia, vi bela paisagem à minha frente, composta pela água do mar, montanhas e forte luz do Sol. Rapidamente o garçom se prontificou a buscar uma geladinha. Todo mundo topou. E eu também.
Quase que instantaneamente, surgiu a garrafa de cerveja bem acinzentada de tão gelada. “Aí sim”, alguém disse. O garçom serviu todo mundo e saiu, sempre rapidamente. Com os copos nas mãos, o bate papo rolou solto. Assuntos principais: mulher, festa e a situação atual de vida dos amigos. Rimos bastante. Bebi o primeiro gole de cerveja. Rapidamente senti uma leve queda de lucidez. Fui envolvido por um bolsão que pareceu me deixar parcialmente sedado. E essa sensação só aumentaria à medida que eu ingerisse mais álcool. “Com essa brecha, quantas companhias energívoras de outras dimensões haviam se conectado a mim naquele instante? ”
Ainda estava indeciso com aquele copo na mão. Talvez o abandonaria. Decidi, então, trabalhar essa indecisão. “Quais as desvantagens de beber nesse fim de semana? ” Havia conseguido alcançar a lucidez que usufruía exatamente naquele momento com muito esforço, pensei sozinho. Olhei para o mar e notei, novamente, o colorido vívido da paisagem. Ouvi o som dos pássaros, da água do mar, das crianças brincando, e dos garçons trabalhando, sempre apressadamente. Indo mais à fundo, pude sentir as energias positivas da natureza. Absorvi o máximo que pude. Foi quando percebi, que estava feliz comigo mesmo. Estava feliz na minha companhia. Eu estava na minha melhor versão.
Esse bem-estar influenciava diretamente a forma como interagia com pessoas e ambientes, percebia. Apesar dos “tropeços” na caminhada desafiadora de assumir a minha própria personalidade, ali notei que já havia conquistado alguma coisa.
O álcool reduziria meu grau de lucidez ao mundo do comum, do que é socialmente aplaudido por todos. Caso entrasse nessa, quanto tempo levaria para recuperar meu melhor grau de lucidez até então vivido? Poderia ficar semanas, e até meses naquela mesmice, sem perceber. A escolha cabia somente a mim.
Observando meus amigos e lembrando de algumas vivências do passado, pude perceber que o que parece “desinibição” é justamente o oposto. O álcool nos reduz a emoções rasas. A sua utilização grupal fomenta nivelação de lucidez baixa, quando ninguém precisará enfrentar as próprias dificuldades e assumir as próprias qualidades no convívio social. Tudo indica que ao assumir com autenticidade as nossas personalidades, as relações sociais podem se tornar mais interessantes e naturais, sem necessidade de muletas como o álcool. Qual a dimensão da felicidade que nos aguarda?
Pensando sob esse ponto de vista, os ganhos secundários da bebida já não pareceram tão desejáveis. “Quantas vezes mais seria preciso viver o mesmo comportamento “anestesiante” para ser aceito por outras pessoas? ” Diante desses pensamentos, senti-me bem comigo mesmo. Não quis beber mais durante aquele fim de semana. Algumas pessoas estranharam. Conheci bastante gente. Dei risadas. A sensação de bem-estar perseverou por todos os dias de viagem. Senti que me aproximei de meus amigos. Uns deixaram todo o seu dinheiro no bar. Outros passaram mal. As histórias malucas se concretizaram. Para mim, a singela reflexão aqui relatada fez do meu fim de semana dias especiais. Afinal, foi possível ser acolhido por outras pessoas sem a necessidade de esconder quem sou atrás de um personagem supostamente divertido, mas certamente embriagado. Isso só foi possível a partir da autoaceitação.

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